Boletim – Inflação (2º semestre 2017)

BOLETIM: INFLAÇÃO

A análise da trajetória da inflação no Brasil será feita com base em diferentes índices: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), medidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); o Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) e o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), produzidos pelo Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), da Fundação Getúlio Vargas (FGV); bem como o Índice de Custo de Vida (ICV) e o custo da cesta básica, medidos pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Neste boletim, será considerada a dinâmica inflacionária entre os meses de janeiro e outubro de 2017, contrastada com aquela verificada no mesmo período de 2016. De modo geral, a tendência à desaceleração inflacionária se manteve ao longo deste ano, e os principais índices atingiram patamares bastante baixos, inferiores ao centro da meta de inflação, de 4,5% (que será reduzida a 4,25% em 2019, e a 4% em 2020).

Por exemplo, a inflação acumulada entre janeiro e outubro de 2017, segundo o IPCA, foi de 2,21%, inferior à registrada no mesmo período do ano anterior, de 5,64%. Com base nos dados apresentados na sequência, será visto que o grupo Alimentos teve um peso decisivo na determinação dessa trajetória, em grande medida em função de uma safra agrícola particularmente boa. Dentre os fatores que impediram uma redução da inflação ainda maior, pode-se constatar os reajustes nos preços dos produtos farmacêuticos e dos planos de saúde, bem como a liberação de saques do FGTS e do PIS/PASEP. Ademais, a despeito da elevação das tarifas de energia elétrica, por conta do acionamento da bandeira vermelha no mês de outubro de 2017, bem como da expectativa de uma safra agrícola menor no próximo ano, no curto prazo não parece haver uma tendência a uma expressiva aceleração inflacionária. Antes de esboçar uma análise mais propriamente qualitativa desse fenômeno, cabe considerar o que registram os referidos índices.

IPCA e INPC

Dentre os principais indicadores na mensuração da inflação no Brasil ganha destaque o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tendo por base a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) feita em 2008/9. O IPCA abrange as famílias nas áreas urbanas com rendimentos de 1 a 40 salários mínimos, seja qual for sua fonte de rendimento. Ele é a principal referência para as diretrizes da política monetária baseada em metas de inflação.

2.1 – Inflação calculada pelo IPCA (em %)

Fonte: IBGE

A inflação acumulada de janeiro a outubro de 2017, segundo o IPCA, totalizou 1,78%, muito inferior aos 5,38% registrados no mesmo período do ano anterior.
Observando os grupos de mercadorias e serviços que constituem esse índice, ainda comparando o acumulado nos meses de janeiro a outubro de 2016 com o mesmo período de 2017, a desaceleração verificada no ano de 2017 refletiu de forma mais intensa nos grupos “Alimentação e Bebidas” que caiu de 8,44% para -2,03%; “Despesas Pessoais”, passando de 6,26% para 3,46%; bem como no grupo “Saúde e Cuidados Pessoais”, que recuou de 9,48% para 5,59%, e “Vestuário”, que foi de 2,97% para 1,92%. Já os grupos de “Habitação” e “Comunicação” apresentaram aceleração, respectivamente, de 3,12% para 5,29% e de 1% para 1,71%.
Outro indicador na mensuração da inflação pelo IBGE é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (INPC), que difere do IPCA em sua abrangência, já que considera as famílias com rendimentos mensais de 1 a 5 salários mínimos.

 

2.2 – Inflação calculada pelo INPC (em %)

Fonte: IBGE

O acumulado nos dez primeiros meses de 2017 foi de 1,61%, e é menor quando comparado ao mesmo período de 2016, de 6,19%. Dentre os grupos que compõem o índice geral, os que apresentaram maior queda dos preços foram o de “Alimentos”, “Saúde” e “Educação”. Apenas o grupo de Habitação apresentou aceleração, em comparação com 2016.

IGP-DI e IGP-M

O Instituto Brasileiro de Economia (IBRE), é o órgão da Fundação Getúlio Vargas (FGV) responsável pelo cálculo do Índice Geral de Preços. Este índice é muito importante, pois separa os setores da economia e afere quais áreas estão sendo mais afetadas pela inflação. O Índice Nacional de Custo de Construção (INCC) representa 10% do cálculo do IGP, e mede a variação de preços na construção civil, tanto da mão de obra, como dos materiais utilizados. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) possui um peso de 30% do IGP e mede a variação de preços dos produtos consumidos por famílias com renda de 1 a 33 salários mínimos, com base na POF de 2008/9. O que tem maior influência é o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), com um peso de 60% no cálculo do IGP, e que mede a variação de preços do mercado atacadista.
O Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) registra a inflação do primeiro ao último dia do mês de referência. Esse índice é muito importante, pois mede a inflação global da economia, dos produtos agrícolas básicos, passando por todos os processos produtivos até os bens e serviços finais.

2.3 – Evolução do IGP-DI (em %)
Fonte: IBRE-FGV

Entre janeiro e outubro de 2017, o IGP-DI registrou uma deflação de -1,94%, que contrasta fortemente com a elevação de 6,24% ocorrida no mesmo período de 2016. Já com o índice desagregado vê-se que o IPA-DI acumulado no ano registrou uma queda de -4,57%, fator decisivo para entender a deflação do índice global; no mesmo período do ano anterior, o IPA-DI registrou uma elevação de 6,57%. Com exceção dos “Bens intermediários’’, todos os itens que compõe este índice apresentaram variação negativa, com destaque para “matérias-primas brutas” (-14,01%), no que tange aos estágios da produção; para os “produtos agropecuários” (-13,78%), e para os “produtos industriais” (-1,06%), no que tange à origem dos produtos. O INCC-DI e o IPC-DI apresentaram pequena aceleração, mas em comparação com o mesmo período do ano anterior apresentaram redução. Para o IPC-DI o acumulado no ano de 2017 registrou 2,64% frente a 5,65% em 2016.

Os subgrupos registraram os seguintes acumulados: “Alimentação” (-0,65%), “Habitação” (3,90%), “Vestuário” (1,49%), “Saúde e cuidados pessoais” (5,33%), “Educação” (5,43%), “Transportes” (3,0%), “Despesas diversas” (3,53%) e “Comunicação” (1,78%). Em relação ao INCC o período de janeiro a outubro de 2017 registrou um acumulado de 3,85%, frente a 5,59% registrado em 2016.

2.4 – Variação do IGP-DI desagregado (em %)
Fonte: IBRE-FGV

 

A trajetória deflacionária do IGP-DI é condicionada por múltiplos fatores e, de certa forma, dá continuidade ao processo retratado no Boletim nº 56. Os meses de agosto e setembro romperam a trajetória descendente e apresentaram variações de 0,24% e 0,62%, respectivamente. Esse movimento ainda não representa uma possível retomada inflacionária dados outros condicionantes, como, por exemplo, o cenário de crise da economia brasileira, o ainda elevado nível de capacidade ociosa e de desemprego, e uma dificuldade recuperação de tomada de crédito por parte das empresas.
Os principais condicionantes da abrupta queda do IGP-DI do ano de 2016 para o ano de 2017 foram o arrefecimento dos preços dos alimentos e produtos industrializados, muito por conta da recessão econômica e da evolução da taxa de câmbio, que apresentou relativa estabilidade em um patamar mais valorizado, quando comparado ao verificado no ano anterior.

 

2.5 – Variação do IGP-M (em %)

Fonte: IBRE-FGV

Em relação ao Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), ainda no período compreendido entre janeiro a outubro de 2017 registrou-se variação de -1,91%. No mesmo período de 2016 o índice registou variação de 6,63%.

ICV e Cesta básica
Baseado em uma Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) realizada entre 1994 e 1995, e elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o Índice de Custo de Vida (ICV) mede a variação do custo de vida das famílias com renda de 1 a 30 salários mínimos do município de São Paulo. Esse índice também diferencia três estratos de renda, cada qual composto por um terço das famílias .

A variação acumulada do ICV no período compreendido entre janeiro e outubro de 2017 foi de 2,01%, inferior ao mesmo período do ano anterior, que foi de 5,73%. Ainda comparando ambos os períodos, observa-se que essa diminuição do ICV se deve, sobretudo, à redução de preços no grupo de “Alimentação” (de 8,72% para -1,82%) e à forte desaceleração no grupo de “Despesas Pessoais” (de 10,44% para 2,02%), de “Transporte” (de 4,17% para 0,47%), de “Recreação” (5,55% para 0,94%), de “Saúde” (5,28% para 4,59%), bem como a deflação verificada no grupo de “Equipamentos Domésticos” (0,34% para -3,83%). O único aumento no período deu-se no grupo de “Habitação” (1,93% para 5,91%). Diga-se de passagem, entre setembro e outubro de 2017 há um aumento significativo causado pelo reajuste da energia elétrica (15,58%) e do gás de botijão (9,99%), que conduziu a uma ligeira aceleração da inflação.

2.5. Variação do ICV (em %)Fonte: DIEESE

 

Cabe destacar que no acumulado do ano, a inflação que incidiu sobre as famílias mais pobres, que compõe o estrato 1 de acordo com a metodologia do DIEESE, atingiu 1,60%; no estrato 2, de renda intermediária, a inflação atingiu 1,62%; já para o estrato 3, o índice foi de 2,3%.
O DIEESE também disponibiliza os preços da Cesta Básica Nacional com o objetivo de acompanhar seu comportamento através de pesquisas mensais nas capitais brasileiras. Considera-se que a Cesta Nacional Básica é constituída por treze gêneros alimentícios, porém a quantidade dos gêneros pode variar de acordo cada região. Os produtos que a compõem são: Arroz, Açúcar, Banana, Batata, Café, Carne, Farinha, Feijão, Leite, Manteiga, Óleo, Pão, Tomate.

 

2.6 – Variações mais expressivas da cesta básica anual

Fonte: DIEESE

A partir do mês de novembro de 2016 observa-se uma tendência de decrescimento no custo da cesta básica. No próprio mês de novembro o valor da cesta básica abaixou em 25 capitais onde o DIEESE realizou a pesquisa, e Vitória ocupou a quinta posição no valor mais elevado da cesta R$ 438,85 .
Em outubro de 2017 as maiores quedas foram observadas em Maceió (-2,52%), Manaus (-1,77%), e vale ressaltar Goiânia, que apresentou a maior queda (-2,79%). Em 12 meses, o valor da cesta apresentou redução em todas as cidades pesquisadas. As taxas negativas variaram entre 16,10%, em Cuiabá, e 6,53%, em Porto Alegre. Segundo o levantamento feito pelo DIEESE, a cesta mais cara no mês de outubro foi a de Porto Alegre (R$ 446,87), e a cesta mais barata em Salvador (R$ 318,31); já a de Vitória correspondeu a R$ 393,71.
O DIEESE também calcula o salário mínimo necessário para a manutenção mensal de uma família com quatro pessoas, com base na realidade de São Paulo. Em outubro 2016 o salário mínimo necessário para manutenção de uma família de quatro pessoas deveria equivaler a R$ 4.016,27, ou 4,56 vezes o salário mínimo de R$ 880,00. Em 2017, o mínimo necessário correspondeu a R$ 3.754,16, o que é equivalente a 4 vezes o salário mínimo atual, de R$ 937,00.
***
Depois da terrível experiência inflacionária que teve seu auge nos primeiros anos da década de 1990 e do Plano Real, que a debelou, tornou-se comum tratar a inflação de modo maniqueísta e como fenômeno isolado, como se fosse a fonte de todos os males econômicos, e como se houvesse a possibilidade de compreendê-lo por si só, sem considerar sua articulação com outros determinantes conjunturais e estruturais da economia. Assim, uma aceleração inflacionária logo provoca reações virulentas, sendo tomada como sinônimo de irresponsabilidade e incompetência dos governos, que penalizaria fortemente as camadas mais pauperizadas da população. Do mesmo modo, uma desaceleração inflacionária é cantada em prosa e verso como prova dos acertos governamentais e como indicativo de um futuro luminoso para a economia.
A trajetória fortemente descendente da inflação no último período tornou-se uma poderosa peça de propaganda governamental. Resta saber se tal desaceleração é realmente um indicador e um resultado da ação estatal, no sentido da mobilização de um conjunto de políticas econômicas consistentes, e também se, dentro de um contexto mais amplo, essa trajetória indica um quadro virtuoso, ou se existem aí elementos problemáticos.
Destaca-se a seguir dois exemplos das tratativas otimistas sobre a inflação atual, ambos de origem governamental. Na abertura da edição de setembro de 2017 da Carta de Conjuntura do IPEA, lê-se que “ao longo dos últimos meses, o processo de desinflação da economia brasileira continuou a surpreender positivamente”. Além disso, que “a expectativa para o restante do ano é de uma inflação bem comportada, em patamar próximo a 3,5%”. No entanto, esse tom entusiástico contrasta com a explicação dessa trajetória: “o aumento da oferta de alimentos e o baixo dinamismo da demanda doméstica vêm possibilitando uma queda contínua dos preços de bens e serviços livres”.
Com base em um arcabouço analítico mais completo, recente relatório de inflação do Banco Central, publicado em setembro último, comemora uma “recuperação gradual da atividade econômica”, uma “situação robusta” do balanço de pagamentos e um “ambiente com inflação baixa”. Dentre os fatores que explicariam essa promissora situação, fala-se de uma expansão significativa do consumo das famílias”; de um “aumento da massa de rendimentos reais”; de um recuo da taxa de desemprego; de um ambiente internacional favorável, com a retomada do crescimento econômico em termos globais; e de um aumento na confiança do empresariado.
Não obstante, ao desenvolver essa análise, o mesmo relatório apresenta informações que complexificam tal diagnóstico: a) o crescimento do PIB brasileiro no segundo semestre de 2017 foi de apenas 0,2% em relação ao trimestre anterior, depois daquela que tem sido considerada a pior recessão da história do país; b) houve uma queda de 6,5% dos investimentos no segundo semestre de 2017 em comparação com o primeiro semestre do ano; c) a Formação Bruta de Capital Fixo recuou 0,7% nesse período, acumulando uma queda de 29,7% desde o terceiro trimestre de 2013; d) a balança comercial favoreceu o balanço de pagamentos devido ao bom desempenho das commodities exportadas pelo Brasil, mas também a um forte “recuo nas importações de bens de capital”; e) o Nível de Utilização da Capacidade Instalada da indústria de transformação manteve-se relativamente estável, em um patamar bastante elevado, registrando uma média de 74,3% entre junho e agosto de 2017; f) o saldo das operações de crédito do sistema financeiro diminuiu 0,3% no trimestre encerrado em julho”.
Em suma, no limite, ambos os documentos dão conta de que a redução das taxas de inflação decorre fundamentalmente do péssimo desempenho da economia brasileira, que apresenta um nível de atividade baixíssimo num contexto de grandes constrangimentos estruturais, expressos na dependência em relação à produção de commodities e em pífios níveis de investimentos produtivos, questões que serão objeto de análise em outras sessões deste boletim.
Logo, a inflação não pode ser considerada de modo independente de outras características da economia brasileira, e tampouco tratada de modo binário; muito mais do que um motivo para se comemorar, a recente trajetória da inflação parece ser motivo de apreensão, e indica a necessidade de mudanças estruturais na economia brasileira, que não despontam no horizonte.

[1] O primeiro estrato é composto pelas famílias mais pobres, com renda média de R$ 377,49; o segundo estrato possui uma renda média de R$ 934,17, e o terceiro estrato reúne as famílias de maior poder aquisitivo, com renda média de R$ 2.792,90.
[2] O acompanhamento do custo da cesta básica foi interrompido em Palmas, Rio Branco e Teresina, em agosto de 2017. Já em setembro deste ano, ele deixou de ser realizado em Macapá, Boa Vista e Porto Velho.