Boletim de conjuntura econômica n° 47 – Apresentação

Texto de Novembro de 2010.
A despeito das pressões mundiais para a adoção de medidas de caráter recessivo, o governo brasileiro empreendeu fortes políticas anticíclicas no campo monetário e fiscal, além da sustentação dos investimentos e crédito públicos. Essas ações ficam explícitas nos indicadores posteriormente apresentados nas análises monetária e fiscal. Eficazes para reverter os riscos de recessão que se avizinhava desde fins de 2008 essas medidas encontram óbices para se configurarem enquanto uma estratégia de sustentação do crescimento e do investimento do país a médio prazo.
Os indicadores bastante favoráveis no campo do emprego e do nível de atividade apresentados por este boletim corroboram o discurso oficial de sucesso na mitigação dos efeitos da crise, com taxas de crescimento significativas e a redução do nível de desemprego. Não obstante o quadro de retomada do crescimento, as dificuldades se colocam num plano mais estrutural, vinculadas a própria arquitetura do modelo de desenvolvimento implantado no país desde o plano Real.
Sob este último ponto de vista existe uma frente crucial de problemas manifesta na atualidade, que possibilita questionar a sustentabilidade desse crescimento e a sua natureza: a drástica apreciação do câmbio fruto do modelo de abertura do Brasil agora confrontado com um contexto internacional que enseja um ambiente de guerra cambial e dirige para o país uma enxurrada de capitais especulativos, atraídos pela ainda elevadíssima taxa de juros aqui praticada. No campo ortodoxo as saídas propostas para corrigir tais desequilíbrios vão no sentido da imediata retomada e aprofundamento do ajuste fiscal, sob a hipótese de que só assim a taxa de juros poderia ser reduzida. As pressões para que isso ocorra tendem a ser cada vez maiores, sob a chancela da mídia que sustenta tais concepções.
Por outro lado, numa perspectiva mais pautada no balanço de pagamentos estão desenhadas duas saídas para a problemática externa, ambas com conseqüências de difícil previsão. A primeira delas, à qual parecem se alinhar os industriais vinculados a produtos exportados de maior valor agregado, é também defendida pela FIESP. A segunda, que parece contemplar os exportadores de commodities no Brasil e a diplomacia brasileira.
Deve-se ponderar que o intenso fluxo de dólares para o Brasil tem como importante fator explicativo, sob o ponto de vista externo, a estratégia dos EUA de enfrentamento da crise internacional, transferindo para os demais países o seu ônus. Os EUA, ao invés de fazer o ajuste de suas contas e restringir a atuação dos aplicadores financeiros, os quais foram os grandes responsáveis pela crise, emitem dólares e títulos da dívida pública para financiar as suas contas e exportam a sua inflação para o resto do mundo, obrigando os demais países a apreciar as suas moedas.
A pressão dos países desenvolvidos tem sido feita no sentido de manter a ordem financeira atual, de livre fluxo de capitais e mercadorias, não discutir seriamente estratégias coordenadas de regulação financeira, e, ao mesmo tempo, pressionar a China para valorizar a sua moeda. Dessa forma poderiam conter o movimento de expansão das exportações chinesas que se aproveita da desvalorização do dólar para ampliar seus espaços em todo o mundo. Uma eventual valorização do Yuan poderia ampliar os mercados externos dos países desenvolvidos mas, ao mesmo tempo, reduzir o preço das commodities, em grande parte sustentado pela demanda chinesa.
Não obstante, um alinhamento do Brasil àqueles que pressionam pela valorização do Yuan pode favorecer a manutenção (e até aumento) das fatias de mercado no exterior do capital industrial sediado no país e talvez minimizar o processo de desindustrialização. Todavia, existem riscos nessa alternativa. O mais imediato é a eventual queda nos preços dascommodities, que representam 60% da pauta brasileira, podendo agravar ainda mais o já elevado déficit em transações correntes do país, aprofundando a vulnerabilidade externa.
Outra estratégia, sinalizada pelo governo brasileiro no encontro do FMI entre 9 e 10 de outubro corrente, seria o alinhamento do Brasil à China, que manteria a sua moeda, sustentando os preços das commodities, com os países periféricos adotando medidas defensivas no plano cambial, o que pressionaria os EUA e demais países desenvolvidos a absorverem parcela dos efeitos da crise por eles gerada. Essa medida tenderia a prejudicar no Brasil os segmentos exportadores de maior valor agregado, gerando, a médio prazo, efeitos negativos num sentido de crescente especialização regressiva da pauta brasileira ou reprimarização. Também poderia potencializar a entrada de produtos chineses no mercado interno, aprofundando a desindustrialização e o desemprego no plano industrial. Adicionalmente, o país enfrentaria pesadas pressões políticas dos países desenvolvidos face ao seu alinhamento à China, em desconformidade com os interesses daqueles países.

Qualquer das duas saídas parece arriscada ao país, ao mesmo tempo em que a não adoção de nenhuma delas coloca o Brasil numa situação de refém passivo da crise internacional e de sua faceta atual de agressiva guerra cambial desencadeada especialmente pelos EUA. A decisão que o novo governo eleito em novembro deve fazer nessa frente é um dilema de difícil solução: qualquer das duas saídas não se apresenta como adequada e a adoção de nenhuma saída é o pior dos mundos.

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