Boletim n° 53 – Novembro de 2015 – Apresentação

A conjuntura econômica nacional atual mostra um quadro nada animador e o desempenho extremamente desfavorável de variáveis estruturais como o investimento sugere que não há luz no fundo do túnel. Apenas as atividades vinculadas à agricultura e à produção de semi-elaborados para exportação vão bem e continuam empregando e isso se deve não ao mercado internacional favorável mas basicamente à desvalorização significativa da taxa de câmbio brasileira. O quadro de instabilidade generalizada que impacta na economia tem os seus fundamentos não estritamente na esfera política como muitos advogam e sim, em boa medida, na dimensão política que a própria economia apresenta. A rejeição pelos atores de peso no país da política econômica e da estratégia desenvolvimentista do governo Dilma bem como o fracasso do governo do PT no sentido de estimular o investimento privado e o crescimento do PIB, sem promover mudanças estruturais de peso, evidenciam exatamente onde está o seu cerne.
O contínuo martelar pela mídia, desde o ano passado, das denúncias de corrupção na Petrobras, no BNDES ou onde quer que seja conveniente buscar, ofusca para a população o que de fato interessa saber. Para além do discurso anticorrupção, que rodas mais fechadas de políticos e de empresários reconhecem ser endêmica no país, os de cima entendem que é necessário sacrificar o que seja para retomar os trilhos da confiança e da tranqüilidade que os tempos de maior coerência com a cartilha neoliberal traziam para os mesmos. O fracasso do PT em encontrar uma terceira via, que trouxesse alguns ganhos para os de baixo e mantivesse certa concordância com a política econômica do tripé macroeconômico – especialmente a capacidade do governo em absorver em seu orçamento as despesas financeiras -, bem como um compromisso parcial com algumas reformas liberais, torna-se evidente para quem busca enxergar além da poeira que se levantou.
A despeito de não haver qualquer indício de um golpe civil militar em curso o ambiente assemelha-se ao período que antecedeu março de 1964. E mantido ou não o governo Dilma no poder a reversão da política econômica fracassada, a retomada da agenda de reformas da oposição, com o basta que vem sendo dado a algumas conquistas que os de baixo alcançaram até então, denota que um golpe branco já se deu.
Por outro lado, independente do sucesso da oposição em derrubar o governo Dilma, a armadilha de endividamento criada pela estratégia desenvolvimentista do governo assemelha-se a uma teia que o aprisiona em sua própria criação e o obriga a executar o oposto do que desejava. Além de se dever a tentativa de sobreviver no poder, esta capitulação se deve ao fato de que foi o próprio governo quem criou as condições de seu inferno astral. A conta econômica do fracasso lhe aparece com despesas financeiras que já atingem quase 10% do PIB e tornam pífios os seus esforços para gerar qualquer superávit primário bem como fazer qualquer coisa que seja no plano orçamentário. Aprisionado no campo dos gastos financeiros ele precisa cortar outros gastos, onde quer que possa, para absorver essa despesa que o engole com mais endividamento posto ver esvair as suas receitas dada a pesada retração da economia. Sendo impossível o superávit primário, face a queda radical da receita e com as despesas financeiras em rota explosiva, o déficit nominal se acumula e realimenta a dívida mobiliária levando o governo ao mesmo imobilismo que acomete uma presa que cai numa teia de aranha. A diferença é que esta teia foi por ele mesmo tecida.
Associado a esse inferno fiscal, a inflação praticamente chega à casa de dois dígitos no acumulado do ano, a taxa de desemprego bate recordes, puxada pelo crescimento da desocupação na construção civil, na indústria e no comércio. Nesse quadro desfavorável, a intensificação da pressão para a elevação da taxa de juros básica, que o governo já considerava em patamar suficiente, torna-se inevitável tendo em vista o recrudescimento inflacionário.
Diante desse ambiente de difícil solução, com ou sem golpe de fato, o brasileiro vai se virando como pode, buscando trabalhar por conta própria, grupo que já soma 22 milhões de pessoas no país, bem como aceitando propostas precarizadoras de redução de jornada de trabalho e de salários, como ocorreu na indústria. Muitos pequenos e médios negócios cerraram as portas, o faturamento das grandes empresas mostra queda, a despeito das de maior peso fecharem o ano ainda com bons lucros, ajustados apenas a um patamar de menores custos. O investimento direto no país, realizado por estrangeiros, também retraiu-se significativamente com relação ao ano passado e as contas externas só se beneficiam de um saldo comercial que ocorre predominantemente tendo em vista a retração das importações explicada pela recessão interna e pela desvalorização cambial. Numa economia de mercado em crise, seja a crise fruto do ciclo de negócios, seja ela produzida pelo governo ou pelo comportamento dos de cima, a corda sempre arrebenta para os de baixo.

Boletim Completo