“A mercantilização de tudo” – Adamário Dias e Wires Alves

Comentário

O mercado está presente no funcionamento de qualquer país que adota o modo de produção capitalista. Isso acontece pelo fato de o capitalismo transformar qualquer coisa, ou boa parte delas, em mercadoria, com o intuito de alcançar determinados objetivos a partir da ação das trocas. Em diferentes momentos da história econômica mundial, o mercado mundial oscilou em posições ora mais livre, ora menos livre, mantendo particularidades em cada período. Nos dias de hoje, acreditamos na vivência de um momento em que o mercado se encontra amplamente disseminado nos setores econômicos e, com isso, obtém o caráter mais livre. Entretanto, o que queremos com este texto é analisar esse movimento até a utilização do ambiente mercantil, ou seja, o que antecede a ação final no mercado, e como esse ambiente está inteiramente interligado com a mentalidade dos indivíduos e alguns de seus respectivos impactos na sociedade. Vale destacar que para isso ser alcançado utilizaremos a contextualização histórica do caso brasileiro para analisar os efeitos de sua expansão, que se encontra no estágio em que as ações estão centradas no ambiente mercadológico, criando muitas vezes a impressão de que ele se comporta como uma entidade.

O divisor de águas da amplificação mercantil no nosso país se encontra a partir do período de 1980, grandemente explicado pelo aprofundamento das ideias neoliberais, cuja concepção recai justamente em deixar a economia ser ditada pelo livre mercado, e isso aconteceu por motivos interessantes. Períodos antes daquela que ficou conhecida na história como “década perdida”, o nosso país contraía enormes dívidas externas, mediante empréstimos internacionais, que maior parte foi destinada ao financiamento da nossa industrialização, pautada em substituir as mercadorias que outrora eram importadas.

Grande parte dos recursos auferidos era conseguida com o aval dos EUA, sendo eles fixados pela taxa de juros americana, a Prime rate. Na década de 1970, ocorrera dois acontecimentos que provocaram uma elevação dessa taxa de juros a patamares exorbitantes: os dois choques do petróleo. O primeiro, no ano de 1973, não provocou de imediato o movimento indicado. Já o segundo, em 1979, distorceu por completo os preços dos produtos norte-americanos, levando as autoridades econômicas, adeptas da linha ortodoxa, a adotarem sua principal medida de combate à inflação: o aumento da taxa de juros. No entanto, a título de informação, há literaturas que apontam que essa prática extrapolou a esfera econômica, servindo como um ataque de caso pensado, contra as economias latino-americanas, por parte dos EUA.

A partir disso, além dessa atitude romper com uma das principais fontes de financiamento da industrialização brasileira, a dívida contraída explode, deixando a nação à mercê das imposições político-econômicas das autoridades financeiras internacionais, que como sabemos eram, e ainda são, amplamente adepta à concepção ortodoxa/neoliberal. Como afirma Wilson Cano em seu artigo “Brasil: construção e desconstrução do desenvolvimento”, uma das principais imposições foi a diminuição do controle do Estado na economia, o que levou o país a sofrer perda de grau de soberania, abrindo margem para a instalação das bases neoliberais, como a abertura comercial e financeira. O relevante de tudo isso é entender que os movimentos em prol da inserção intensificada do Brasil no livre mercado internacional contribuíram fortemente para que ela, “a mercantilização de tudo”, aparecesse com toda a força no ambiente interno do nosso país.

Bom, acreditando ter cumprido com o papel de explicar o caminho percorrido até o alastramento do mercado a partir da década de 1980, debrucemos nos efeitos que se verificam na sociedade pelo acolhimento de tais ideais.

A mentalidade que é propagada a partir de então se pauta em agir em defesa do livre funcionamento comercial, pois ele teria o poder de regular a economia em direção ao bem-estar social. Aceitar essa premissa é concordar com um dos principais pressupostos dos adeptos do livre mercado: nesse ambiente acontece aquilo que chamamos na Ciência Econômica de concorrência perfeita, nunca observada na história do capitalismo desenvolvido (salvo nas feiras livres, e olhe lá!). No entanto, a mercantilização disseminada percorre um caminho até o seu resultado final (venda da mercadoria), caminho esse que preza pelo produtivismo, levando a consequências pessoais sérias como: abertura de mão dos gostos pessoais para se encaixar no mercado; aceleração da rotina diária; e adoecimento da população. Todos esses pontos estão bem interligados.

Aceitamos a ideia de que o mercado tem o poder de selecionar aquilo que mais lhe convém para o seu amplo funcionamento, mas acontece que isso acaba por ultrapassar as linhas estritamente econômicas. As pessoas são fortemente induzidas a delinearem suas vidas em concordância com o que o mercado precisa. Não é à toa que existem profissões mais valorizadas quando comparadas à outras como engenharia, medicina, direito, mas que são igualmente importantes quanto qualquer outra menos visadas do que essas. O que ocorre com isso é que muita gente acaba abrindo mão de fazer o que gosta para se introduzir na lógica do mercado; faz-se uma escolha não tão simples, mas de poucas opções: sobreviver ou fazer aquilo que gosta. Infelizmente são poucos que conseguem conciliar as duas coisas.

Ultimamente, nota-se uma clara diminuição do tempo, mas não porque os dias pararam de ter 24 horas e sim por causa da intensificação das rotinas diárias. Torna-se cada vez mais “normal” a ampliação das tarefas, dando a impressão de que o dia de hoje não é mais o mesmo do que o de 30 anos atrás… E essa ampliação pode ser percebida por nós mediante algumas coisas bem simples, que se encontram cada vez mais presentes em nossa sociedade, como, por exemplo, a flexibilização do trabalho e a acumulação de cargos. Qualquer semelhança com a ampla disseminação do mercado não é mera coincidência. A ideia do produtivismo apontada anteriormente está diretamente relacionada a um outro aspecto que já citamos no decorrer deste texto, que é a aceleração da rotina diária. Passamos por um momento que, nem sempre, o que se leva em conta é a qualidade de fato, mas sim, o mais expressivo e relevante, é a quantidade.

Conseguimos enxergar isso de maneira bem explícita quando voltamos nossos olhares para o processo de quantificação presente no meio acadêmico. Atualmente isso vem se evidenciando majoritariamente nas publicações de trabalhos como um todo, que irão aparecer posteriormente no currículo de seus autores, mas que não necessariamente serão acessados pelos demais do meio acadêmico ou pelo restante da sociedade. Sendo assim, esse fenômeno de aceleração diária da rotina acaba por criar um efeito duplamente prejudicial, uma vez que exige uma maior velocidade no desenvolvimento de um determinado pensamento, transcorrendo pela questão da quantidade já citada. Desse modo tende-se a desencadear certa despreocupação nos pesquisadores em fazer trabalhos realmente relevantes e passíveis de modificação da vida daqueles ao seu redor. Isso pode vir acontecer por se tratar de mais um trabalho no meio de tantos e que no final das contas receberá seu mérito por mais uma publicação que irá compor o seu currículo.

A busca cada vez maior pelo crescimento da produtividade leva os seres humanos a forçarem os seus limites biológicos, tanto no quesito físico quanto no mental. A própria rotina mais extensa, mencionada anteriormente, vem sendo manifestada de forma progressiva nas pessoas, preponderantemente da classe trabalhadora, que necessitam sair de suas casas cada vez mais cedo para chegarem ao trabalho e retornam aos seus lares mais tarde, fazendo de sua casa quase que exclusivamente um dormitório, mitigando as relações familiares, afetando negativamente a qualidade de vida.  Outra situação recorrente é a de pessoas que passam várias horas seguidas lendo e se dedicando a certos projetos e/ou pesquisas e até perdendo noites de sono para tal, ação totalmente não recomendada para qualquer indivíduo, mas muitas vezes necessária para cumprir com todos os prazos que lhes são impostos.

Os fatos discorridos em todo o texto valem para vários outros setores que encontramos em nossa sociedade. Porém, utilizamos os exemplos referentes ao meio acadêmico, porque em nosso cotidiano são aqueles que se apresentam de maneira mais rotineira e perceptível.

Então, todos esses esforços realizados pela sociedade para se enquadrar num panorama em constante modificação ao longo do tempo, deixa evidente que não somos diferentes do pão ou do café que compramos na padaria, pois, assim como, eles somos objetos negociáveis. Através da especialização, de uma forma geral, buscamos estar em constante “processo de valorização”, para quando nos direcionarmos ao mercado, como mais uma mercadoria que lá pode ser encontrada, possamos ser melhores remunerados pelo nosso trabalho, já que na sociedade do capital não existem homens e mulheres, existem mercadorias.

Autores: Adamário Dias e Wires Alves
Resenha Econômica é uma publicação do Programa de Educação Tutorial – PET/SESu