“Violência Velada” – Eloah de Jesus Fassarella e Lays Hesse Andrade Silva

Machismo invisível: comportamentos socialmente aceitos são igualmente destrutivos (Disponível em: Bonde)

[…] O machismo afeta diretamente as mulheres por uma questão da opressão e tudo que está implicado a isso. Desde questões históricas e culturais, o machismo é perpetuado na sociedade através de pequenos gestos que vão, desde um fiu-fiu na rua, atitude invasiva e abordagens que objetificam e exploram o corpo da mulher, concepções de que a mulher é um ser inferior e subalterno ao homem e que faz com que mulheres que realizam a mesma função no trabalho do que um homem ganhem menos do que ele, até a um estupro e o feminicídio. Mulheres que são assassinadas pela cultura falocêntrica e patriarcal que impera na sociedade. […]

Comentário

A palavra machismo, muitas vezes, nos remete a acontecimentos extremos, como estupro, violência doméstica, feminicídio. No entanto, o machismo é um comportamento cotidiano, que afeta todas as mulheres e, diariamente, coopera para perpetuar a imagem de inferioridade e suBserviênciA femInina.

Ser mulher é estar eXpOsta A um ambiente cOnstantemente hostil em todos os seus meios de vivência. Em casa, como filha, a mulher está sujeita a uma criação restritiva, diferenciada e autoritária; como irmã, em relação a um irmão, a lógica se mantém, por ser tratada diferente, sendo designadas a ela tarefas domésticas, por exemplo, que, na grande maioria das famílias, não são direcionadas ao homem, colocando-a em uma Posição de servilismo; como mãe e esposA, quando,

apesar de TeR tantas obrIgAções quanto o maRido, no momento que ChegA em casa ainDa gasta mais hOras com tarefas domésticas e de cuidado. Isso pode ser comprovado a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) que evidencia que as mulheres brasileiras despendem 10 horas semanais a mais com atividades do lar do que os homens. Além de que, quando se dedica somente às atividades domésticas, sua ocupação é desmerecida, como se sua contribuição, por não ser remunerada, fosse menos importante.

Considerado secundário por não ser a ele atribuído valor monetário, o trabalho doméstico não remunerado representa uma contradição específica do nosso sistema de reprodução social. Independente de não ter como finalidade a produção de mercadorias, é essencial para a reprodução da força de trabalho. Para além disso, trazendo o debate para termos mais concretos, segundo a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres), o trabalho doméstico não remunerado representaria entre 10% e 39% do Produto Interno Bruto (PIB) dos países.

Mesmo apresentando um papel central para a sociedade, as atividades domésticas, realizadas primordialmente por mulheres, são frutos de uma configuração social subordinante. Dessa forma, representam um obstáculo para a inserção da mulher no mercado de trabalho, pois, o tempo despendido nas tarefas de cuidado e reprodução reduz as possibilidades das mulheres estudarem, se especializarem e ingressarem no mercado de trabalho. Os espaços, portanto, não são ocupados e tampouco representativos. Conseguimos listar exemplos desde as esferas mais próximas, como a conformação do corpo docente do Departamento de Economia/Ufes, em que as mulheres representam cerca de 13% da totalidade, até a composição do Governo Federal atual, por exemplo.

Apesar das mulheres serem maioria populacional, de acordo com o Instituto Brasileiros de Geografia e Estatística (IBGE), elas não representam nem 10% do Congresso Nacional atual. Caso igualmente emblemático é a atual composição dos Ministérios do Brasil. Atualmente são 22 ministérios, sendo que 21 deles são ocupados por homens.

Quando nos referimos à esfera acadêmica podemos notar falta de representatividade feminina. Em muitas áreas do conhecimento, não é simples encontrarmos trabalhos sobre mulheres escritos por mulheres realmente. Ademais, como apontado por estudo publicado pela revista Dados em 2015, ser maioria em determinado campo do conhecimento, não significa, necessariamente, que será mais fácil para a mulher alcançar cargos mais altos.

Isso pode ser explicado pelo fato de que, quando consideramos o mercado de trabalho, as mulheres são frequentemente subjugadas, tendo que mostrar muito mais eficiência do que os homens na ocupação do mesmo cargo. Em adição a isso, regularmente suas ações são postas em xeque por conta de características, historicamente, atribuídas às mulheres e questões fisiológicas, como as oscilações hormonais no período menstrual. Essa forma de violência é direcionada ao psicológico e emocional da mulher, tornando-a questionável não apenas para os demais, mas inclusive para si mesma.

Muitas vezes, em espaços políticos, educacionais e de trabalho, as opiniões e propostas femininas não são levadas a sério, o que não se observa quando a mesma sugestão é dada por um homem. Isso é denominado bropriating, que consiste na apropriação da ideia de uma mulher por parte de um homem, não dando o devido crédito a ela. Prática muito usual também é o mansplaining: a interrupção e explicação, por parte de um homem, daquilo que está sendo exposto, pressupondo incapacidade de compreensão da mulher.

Essas atitudes cotidianas são o alicerce de uma sociedade que, culturalmente, reproduz a sujeição da mulher e condiciona suas ações. Ao considerarmos, por exemplo, os movimentos feministas, que tiveram e têm papel essencial na reestruturação da percepção da mulher perante a sociedade patriarcal, percebemos que, apesar da expressiva importância, esses ainda sofrem repúdios constantes por parte de instâncias altamente repressivas e fortemente masculinizadas, que não enxergam a mulher como parte componente vital da estrutura social.

Além disso, observando a inserção da mulher no mercado de trabalho, notamos, essencialmente, uma divisão sexual que delimita profissões por conta do gênero. Outrossim, quando as funções são feminizadas, na maioria das vezes, a remuneração é mais baixa do que nas definidas como masculinas. Isso é mais visível quando observamos a pesquisa feita pelo IBGE mostrando que as mulheres ainda recebem aproximadamente 30% a menos que os homens. Tal diferenciação salarial é uma das muitas demonstrações de comportamentos misóginos cotidianos, perpetuados no patriarcalismo.

Ademais, ao tratar de violência contra a mulher, é imprescindível discutirmos a objetificação feminina, que está presente em diversos aspectos do dia a dia, seja em comerciais veiculados, massificando a cultura misógina, seja nas atitudes masculinas diárias de assédio. Esse estereótipo de ação que determina o “ser homem”, forte e dominador, é apenas mais um reflexo do machismo, que subjuga a mulher a uma condição de fragilidade e dependência. A misoginia se expressa, portanto, a partir de pequenas atitudes, como considerar humilhante ser comparado a uma mulher, pois a compreensão da posição da mulher na sociedade é, de fato, degradante.

Somado a isso, essa visão inferiorizante preconiza, por exemplo, atitudes como o uso da força para imposição de vontades por parte do homem que, muitas vezes, por ser tão naturalizada, não é encarada como violência pela vítima e por testemunhas à sua volta. Quando há a tentativa de denúncia e reclamação ao agressor ou à instâncias superiores, muitas vezes, os casos são considerados exagerados, invertendo os papéis, resultando na culpabilização da vítima, a partir do discurso de que algumas atitudes são da “natureza” do homem.

Porém, não devemos tratar o assunto simplesmente como um instinto natural masculino, pois o patriarcalismo é uma conformação, em nossa sociedade, pautada na divisão de classes, em que a mulher ocupa, claramente, um espaço de subordinação. Sua importância para a reprodução social é imprescindível, mesmo que restrita ao ambiente doméstico. No entanto, a partir do momento em que a reprodução do sistema se torna insustentável sem a inserção direta da mulher no mercado, ele demanda suas forças.

Em síntese, as relações cotidianas são alicerçadas sob a violência contra a mulher, seja física ou psicológica, explícita ou velada. Por isso, é necessário que haja mais diálogo acerca do assunto, para que se desenvolva maior compreensão sobre as opressões cotidianas vivenciadas. E, para além da compreensão, mulheres e homens devem lutar diariamente contra manifestações dessa cultura, pois ocultar-se ao presenciar abusos é posicionar-se a favor do opressor. Afinal, não será possível alcançar a superação dessa condição imposta às mulheres, sem que todos compreendam a mulher como ser humano.

Resenha Econômica é uma publicação do Programa de Educação Tutorial – PET/SESu
Autores: Eloah de Jesus Fassarella e Lays Hesse Andrade Silva